sábado, 5 de março de 2011

Um pequenino grão de areia

Era assim que começava uma antiga marchinha de carnaval que minha vó Ignês cantava.Lembro com saudades como se fosse ontem sua voz doce e fina cantarolando no meio de sua sala com os braços pra cima numa dança lenta no ritmo da música.Nunca desafinava por mais alto tom que cantasse. O sofá de couro marrom com almofadas de crochê.A cristaleira onde guardava seus tesouros mais preciosos,inclusive nossas cartinhas e presentinhos de artesanato.Sempre oferecendo coisas.Se procupando com nosso conforto.Limpando lugares.Servindo afeto.Pães com erva doce....Poesias para o o inesquecível e insubstituível marido..Quanta saudade...Hoje entendo e admiro mais ainda todos aqueles gestos.Tão simples e pequeninos como um grão de areia que já foi rocha antes de correr quilômetros até chegar no mar sem nunca descansar ou lamentar.Me lembro da última vez que a vi me ascenando em frente a sua casa com um sorriso nos lábios finos depois de um café da tarde.Meu coração sempre aperta quando lembro desse momento.Se pudesse viver mais um minuto sequer com ela talvez dançasse apenas uma marchinha pra comemorar essa nossa bela e breve passagem pela vida.
Bom carnaval!!!

Um comentário:

  1. E nos sofás ela passava um paninho com alcool antes da gente sentar. E só após ela convidava: agora pode sentar minha filha. No vaso do banheiro a mesma coisa. Isso era a sua hospitalidade, mostrava assim o respeito e o carinho que tinha pela gente, seus netos e pela família. Sempre tinha delícias na geladeira. Bolo no aniversário e refri pra quem viesse lhe parabenizar. Ela tratava a gente como criança, o que dava uma certa indignação, mas hoje vejo o quanto eu era mesmo uma criança tão pequenina quanto um grão de areia da sua música.

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